O salto alto bate contra o concreto.
Ela sai de um teatro tentando compreender que o teatro, na verdade, é a sua própria vida. A noite ascende os postes em cor de âmbar e ela, com a mão esquerda a(s)cende um cigarro. No meio do tabaco sente o doce cheiro de dama da noite. Toc toc toc toc, não me toque. Pára.
É surpreendida por dois homens que querem explorar o seu trabalho. Não, não sou dama da noite, sou só atriz de uma peça louca. Não sou louca, sou só oca. Esse é meu último cigarro.
Ela então, com medo, desvia do seu caminho, pra uma selva meio louca, meio rouca, meio oca.
Passa por um arbusto. Ele é pequeno e tem quase o seu tamanho, quase nada.
O concreto bate no salto alto.
O alto salto de um gato invisível move e musica o arbusto. Susto. Toc toc toc toc toc toc (com mais rapidez) toctocto toc. O toque do sapato contra os pés, deixa-os calejados. Da menina escorre sangue. Ela caminha, como um aleijado, ineficiente, insuficiente.
A noite cresce e ela diminui, com a mesma proporção, como se isso fosse possível.
O cheiro da dama da noite já não a embriaga. O cigarro canhoto já não alivia suas tensões. Sua lucidez e sua sobriedade doem mais que os seus calos. O seu alto não vem de um salto. Inexiste.
O alto bate no salto de concreto
O concreto vive na memória dos seus atos, seus autos, seus altos. Cantarola outra melodia. Bárbara. Chico. O meu destino é caminhar assim, desesperada e nua sabendo que no fim da noite serei tua .A lua cresce, que nem sente. Crescente. Além dos sapatos, há uma blusa branca surrada, de onde saem histórias de teatro. Doces ilusões. Doces como o cheiro da dama da noite. Naquele momento ela é apenas aquilo: o sapato cujo salto de tão alto diminui e a história de uma Hering branca. É época de formigas e, em sua independência, ela é mais forte do que todas elas, proporcionalmente.
Bate alto no salto do concreto
É uma noite de domingo. Um quase-verão, quase feliz, quase triste. Ela aguarda qualquer telefonema. Ela não usa brincos. Os brincos usam-na. A vida a arrisca. A vida arisca. À risca. O risco , o traço, a memória, a inglória, engole-a num gole só. Ela consegue, com dificuldade, achar o caminho da casa. Tira os sapatos e liberta os pés em um chão gelado, como o mundo é pra ela ou como ela é pro mundo. Como um poema concreto. E bebo.
Toc toc toc toc toc. Me toque. A toque. Me troque. Meu toque.